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Todos os Direitos Reservados. Copyright © 1957 para a portuguesa
da Casa Publicadora das Assembléias de Deus.
Titulo do original em inglês:
The catacombs of Rome
Copyright © 1923 Tipografia Progresso, Porto, Portugal. Tradução
de Jose Luiz Fernandes Braga Júnior
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional
dos Editores de Livros, RJ.
Scott, Benjamin.
S439c As Catacumbas de Roma / Benjamin Scott. - 4. ed. -
Rio de Janeiro : Casa Publicadora das Assembléias de Deus,
1982.
1. Catacumbas 2. Cristianismo - História I. Título
CDD - 270
CDU - 27
13a Edição/l996
Agradecimentos
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23/02/2011
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índice
Prefácio à primeira edição
Apresentação
1. O paganismo e o seu culto
2. A sociedade sob a influência do paganismo
3. O cristianismo e as catacumbas
4. As catacumbas e o seu testemunho
5. Os epitáfios das catacumbas
6. Romanismo: "cristianismo" adulterado
7. As revelações das catacumbas contra o romanismo
Prefácio à Primeira
Edição
TODOS os historiadores concordam em que o apareci-
mento do Cristianismo marca o início duma era nova, de
progresso material e de perfeição moral. A civilização antiga,
que aqui e ali atingira extraordinário brilho, estava por toda
parte manchada de sangue pela crueldade e pela tirania. As
lágrimas dos escravos e a miséria dos oprimidos misturavam-
se ao fausto e à grandeza dos opulentos, sempre insensíveis às
dores dos seus semelhantes. A Palavra de Cristo bastou para
transformar a sociedade antiga e queimar a gangrena do vício
que a corroia. O Evangelho foi, incontestavelmente, a mais
poderosa alavanca da civilização e do progresso.
Para muitos, essas afirmações talvez pareçam gratuitas. É
que não reconhecem no Cristianismo atual» o poder moral
para tamanha obra. Dizem que o Cristianismo hodierno, com
todo o seu desenvolvimento, não pôde evitar essa medonha
hecatombe que foi a grande guerra. (*) Para esses que assim
pensam, AS CATACUMBAS DE ROMA, de Benjamin Scott,
devem ser uma verdadeira revelação
(*) O autor refere-se à Primeira Guerra Mundial. N.R.
O livro mostra o Cristianismo na sua pureza, no seu vigor.
Nele aprenderão que muito do que hoje se chama
Cristianismo é apenas uma sombra disforme de Cristianismo:
está longe do Cristianismo de Cristo.
Nos cristãos das CATACUMBAS DE ROMA, e nos cristãos
do Novo Testamento, vemos um Cristianismo que é fé, que é
virtude, que é amor, que é vida real, e não mera forma. Ê ação
consciente, sempre em harmonia com o ideal de Cristo.
Fossem todos os que atualmente se dizem cristãos células
assim vivas de fé, esperança e caridade, veríamos se o corpo
social, no que tem de mau e de impuro, não se transformaria
por completo, atingindo a perfeição! Veríamos se ideais tão
práticos e tão úteis, como esse da Liga das Nações de acabar
com as guerras, não teriam realização imediata!
anos, por ocasião dum congresso acadêmico que se
realizou em Roma, visitamos as Catacumbas. A impressão que
sentimos ainda hoje perdura. Ao atravessarmos aquelas
galerias subterrâneas; ao lermos, à luz da velinha que
levávamos na mão, as inscrições de devoção e de crença
gloriosa de tantos heróis da fé, e ao encontrarmos ainda nesta
ou naquela cripta os ossos de tantos mártires, evocamos esses
tempos ominosos dos Cézares e a vitória que, por fim, vieram a
ter os que souberam ser fiéis. Chegados a um cubículo, onde
mal se puderam reunir de pé, apertada-mente, uns cinqüenta
congressistas, e onde outrora, no tempo das perseguições, se
juntavam os cristãos para as reuniões de culto, ouvimos dum
sábio professor italiano, nosso cicerone, um expressivo resumo
histórico desses verdadeiros monumentos da e da
heroicidade cristã. Para mais nos comover, esse resumo
terminou pela leitura dos capítulos XI e XII da Epístola aos
Hebreus. No fim, todos tínhamos os olhos umedecidos pelas
lágrimas, mas o coração fortalecido para a fé.
Quem percorrer atentamente as páginas das CATA-
CUMBAS DE ROMA e seguir com cuidado as eruditas ex-
plicações do seu autor, de, forçosamente, colher impressões
semelhantes às que eu colhi quando percorri em pessoa essas
Catacumbas. Benjamin Scott é hoje um esplêndido
cicerone para nos mostrar as Catacumbas e para nos ensinar
as úteis lições que delas se podem tirar.
Faltam-nos em português livros como este, que facilita o
estudo aos que queiram conhecer o Cristianismo como ele é,
quando digno desse nome.
Prestou um grande serviço à Obra de Deus quem fez a
tradução e promoveu a publicação de AS CATACUMBAS DE
ROMA. Merece os nossos sinceros aplausos e vai, por certo,
receber os agradecimentos de todos os que lerem esta
interessantíssima obra, pelo proveito e prazer que ela lhes
proporcionará.
ALFREDO DA SILVA
Apresentação
muitas maneiras de demonstrar a paganização do
catolicismo romano: pela própria história de seus dogmas,
pela Palavra de Deus, pela evolução do culto pagão, pelos
escritos dos chamados "pais da Igreja" e pelo exame das
catacumbas romanas. Sem desmerecer os demais argumentos,
Benjamin Scott lança mão dos mais seguros registros
históricos, acerca-se de autoridades tão renomadas no assunto
como ele próprio e mostra, pelas inscrições tumulares dos
primeiros séculos, quão simples, pura e bíblica era a dos
primitivos cristãos, em contraste com a religiosidade confusa e
paga do atual "cristianismo" romano.
Os milhares de peregrinos que visitam Roma e suas an-
tigas catacumbas não fazem idéia da extensão destas. Scott
afirma que cerca de 70 mil inscrições foram exploradas e
catalogadas, significando esse número apenas uma pequena
fração de uma vasta necrópole com quatro milhões de
sepulturas em mais de 800 quilômetros de galerias
subterrâneas! "Nesta silenciosa cidade dos mortos" - diz ele -
"vemo-nos cercados por uma poderosa nuvem de testemunhas,
uma multidão que ninguém pode contar, cujos
nomes, desprezados na terra, estão inscritos no Livro da Vida.
"
Em seu prefácio d segunda e terceira edições desta mo-
numental obra, registrou o saudoso Emílio Conde: "A tradução
e a divulgação da obra de Benjamin Scott, As Catacumbas de
Roma, deve-se d operosidade do notável servo de Deus, J.L.
Fernandes Braga Jr., o qual prestou, com esse esforço,
incalculável auxílio ao evangelismo do Brasil e Portugal. A
presente edição deve-se ao gesto da nobre dama viúva
Henriqueta Fernandes Braga, continuadora da obra iniciada
pelo varão que teve por esposo, e que tanto honrou o
Evangelho, autorizando o Editor a dar publicidade ao famoso
livro que Benjamin Scott tão bem documentou".
Reiteramos nossos agradecimentos à ilustre família Braga
pelo privilégio de podermos trazer à lume esta valiosíssima
obra, desta feita em edição de luxo, em que se introduziram
apenas as indispensáveis alterações ortográficas e semânticas.
Também, graças à dedicação do artista plástico Ronaldo
Antunes, todas as ilustrações constantes das edições
anteriores foram esmeradamente refeitas, para maior
enriquecimento deste interessantíssimo documento histórico.
Rio de Janeiro, maio de 1981.
Abraão de Almeida
Diretor de Publicações
1
O Paganismo e o
seu culto
"Os lugares tenebrosos da terra estão cheios de moradas de
crueldade", Salmo 74.20.
O assunto do presente volume apresenta-nos a época
chamada "o período de Augusto". Essa época, começou com o
reinado de César Augusto, nascido mais ou menos no ano 63
a.C. e compreende o período dos seus sucessores imediatos.
Ela foi notável pela florescente condição da literatura e do
saber e pelo próspero cultivo das belas artes.
O grande Júlio César, tio e predecessor de Augusto, tinha
pelas armas vitoriosas tornado tributárias de Roma todas as
nações circunvizinhas. Assim, o Império Romano, quando
Augusto subiu ao trono, compreendia quase todo o mundo
então conhecido.
A religião dessas nações, com a única exceção dos judeus,
era o paganismo, numa ou noutra forma, que era também a
religião da Roma Imperial. Com as suas armas, Roma levava
seus deuses a outras nações e promovia-lhes
1
3
culto. Por conveniência política, Roma adotava deuses de
outras nações pagas, admitindo-os no seu Panteão. A índia
longínqua, a Citia, a África Meridional e a China, ainda que
não conquistadas, e por conseguinte não tributárias de Roma,
eram também pagas. Não obstante as divindades adoradas
nesses países serem diferentes em nome, os seus atributos e
caracteres podiam facilmente identificar-se com os adorados
no Império Romano.
O sistema pagão era Politeísta, isto é, eles adoravam
muitos deuses. Geralmente, essas divindades eram repre-
sentadas por qualquer forma humana, tais como Júpiter, rei
do Olimpo, e muitos outros ídolos cujos nomes são, sem
dúvida, familiares - Marte, Mercúrio, Netuno, Baco, Vulcano,
Juno, Vênus e outros, que eram os deuses ou advogados da
guerra, do roubo, do deboche, da embriaguez. Outros
personificavam virtudes cívicas e domésticas.
Os deuses de Roma, os reis divinizados juntamente com
deuses estrangeiros (tais como Isis, deusa dos egípcios) e com
divindades menores ou semideuses, que presidiam a países,
cidades, rios, estações e colheitas, elevavam a centenas a lista
dos "muitos senhores e muitos deuses", a quem, na época a
que me refiro, o mundo civilizado rendia homenagem e
prestava culto.
Poder-se-iam citar inumeráveis autores para provar o
número e a inutilidade de tais divindades. Um escritor dessa
época observa satiricamente: mais fácil achar um deus do
que um homem "(1) Lívio, falando de Atenas, capital da
Grécia, diz que estava cheia de imagens de deuses e de
homens enfeitados com toda a espécie de material e com toda
a perícia da arte (2). Outro escritor declara: "Por todos os lados
há altares, vítimas, templos e festas" (3).
Mas os romanos o adoravam somente os deuses que
tinham inventado. Na sua ânsia por um Deus verdadeiro, "se
porventura o pudessem achar", e tendo consciência de que
devia haver algum mais digno da sua estima do que as
(1) Petrónio, Sat. XVD.
(2) Tito Lívio, 45,27.
(3) Luciano,
Prometheu,
livro I, p.180.
vis criações da sua corrupta imaginação, ajuntaram aos
milhares de altares mais um: o altar ao DEUS DESCO-
NHECIDO.
Este fato nos é familiar pela narração de Lucas nos Atos
dos Apóstolos, e inteiramente confirmado por escritores
pagãos O espírito do apóstolo Paulo sentia-se comovido em si
mesmo, vendo a cidade de Atenas "toda entregue à idolatria"
(5), e no seu discurso no Areópago Ateniense, disse: "Indo
passando, e vendo os vossos simulacros, achei também um
altar em que se achava esta letra: AO DEUS
DESCONHECIDO" (6).
O que havia em Atenas havia também em Roma, a capital
do mundo, pois nos é dito, pela autoridade de Minúcio Félix,
que construíam altares a divindades desconhecidas. Tal era
então a natureza politeísta do sistema pagão.
Falemos agora um pouco do caráter destes deuses, e da
natureza do culto que lhes era prestado. Não crime, por
mais abominável que seja, que não lhes pudesse ser imputado.
O seu caráter pode resumir-se nestes versos do poeta Pope:
"Deuses injustos, mutáveis, iracundos, Só na
vingança e podridão fecundos".
O que eram os deuses, era o sistema com o qual estavam
identificados; eram os efeitos sobre seus adeptos. Julguemos
esse sistema pelas próprias bocas dos pagãos:
Aristóteles (7) aconselha que as estátuas e pinturas dos
deuses não deveriam exibir cenas indecentes, exceto nos
templos das divindades que presidiam a sensualidade. Como
não deveriam estar as coisas, para ser necessário tal
conselho? E qual o estado de espírito de um pagão esclarecido
que podia justificar tal exceção!
(4) Luciano, no seu
Philopatris
emprega esta forma de juramento: "Juro pelo
Deus Desconhecido
de Atenas". Mais adiante (cap. 29.180). diz: "Achamos o
Deus Desconhecido
em Atenas e
adoramo-lo com as os erguidas para o Céu". Podíamos ainda citar os autores Philostrato,
Pausanias, Petrónio, Diógenes Laercio. e outros, mas estes devem bastar.
(5) Atos 17.16.
(6) Atos 17.23.
(7) Política,
VI, 18, ed. de Schneider.
Petrônio informa-nos que os templos eram freqüentados,
os altares eram enfeitados e as orações eram oferecidas aos
deuses, para que eles tornassem mais agradáveis os vícios
desnaturados dos seus venerados.
O honesto Sêneca (8), revoltado contra o que presenciava
ao redor de si, exclama: "Quão grande é a loucura dos
homens! Balbuciam as mais abomináveis orações, e, se al-
guém se aproxima, calam-se logo; o
que um homem não
deveria ouvir eles não se envergonhavam de dizer aos deu-
ses".
Ainda mais: "Se alguém considera o que eles fazem e ao
que se sujeitam, em vez da decência, encontrará a indecência;
em vez da honra, a indignidade; em vez da razão, a
insensatez".
E, para completar o testemunho dos pagãos, quanto ao
caráter e efeitos do seu sistema, Platão declara: "0 homem
tem-se tornado mais baixo que o mais vil dos animais".
Bem podia o apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos
durante o período a que nos referimos, usar a terrível lin-
guagem contida no lº capítulo da Epístola, pois tudo é
confirmado pelo testemunho de escritores pagãos. Bem podia
Paulo atribuir tudo ao sistema religioso de Roma e ao caráter
de seus deuses, e afirmar que era por isso que mudavam a
glória do Deus incorruptível em semelhança e figura do
homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de serpentes;
pelo que os entregou Deus aos desejos dos seus corações, à
imundície, pois o deram provas de que tivessem o
conhecimento de Deus. Foram entregues por Deus a um
sentimento depravado, para que fizessem coisas que não
convém; cheios de iniqüidade, de malícia, de imoralidade, de
avareza, de maldade, de inveja, de contendas, de engano, de
malignidade; tornaram-se homicidas, mexeriqueiros,
murmuradores, aborrecidos de Deus, contumeliosos, soberbos,
altivos, inventores de males, desobedientes a seus pais,
insipientes, imodestos, sem benevolência, sem palavra, sem
misericórdia (9).
Bastaria citar este trecho de Paulo para provar a nossa
tese. Porém, como pode ser que haja alguns que não inves-
(8) Citado na
Influência do Paganismo
de Tholuck.
(9) Romanos, 1,23,24,28 a 31.
tigaram a irrespondível evidência em que se baseia a au-
tenticidade dos escritos inspirados, julgamos útil apresentar
aos leitores o testemunho combinado, o pagão e o cristão.
Pedimos lerem com atenção o capítulo citado; ajudará a
apreciar o contraste que será apresentado num capítulo
subseqüente.
Quanto ao caráter dos antigos ídolos pagãos, fora dos li-
mites do Império Romano, não temos tantas informações;
existe, porém, evidência suficiente para provar que o paga-
nismo oriental era tão vil e degradante como o da Grécia e de
Roma, sem se ter até agora alterado profundamente. Podemos
estudá-lo pela observação atual. Citarei somente uma
passagem: um documento público apresentado ao Parlamento
por um magistrado de Bengala Meridional, na índia (,0), fala
da adoração da deusa Kalé, dizendo: "O assassino, o ladrão e
a prostituta, todos aspiram a propiciar um deus cujo culto
seja a obscenidade e que se deleite no sangue do homem e dos
animais, e a quem possam implorar auxílio para cometerem
os seus crimes".
Havia, sem dúvida, exceções a esta regra quanto aos
atributos dos deuses pagãos. Algumas daquelas divindades
personificavam virtudes; havia homens melhores do que o
sistema que prevalecia. As exceções eram raras e sobressaem
nos anais da história com tanto brilho quanto à sua raridade.
Estes homens excepcionais eram virtuosos em razão da luz
ainda não extinta na sua natureza decaída; eram virtuosos
apesar do seu sistema religioso e não por causa dele. Dionísio
de Halicarnasso diz: "Há
somente uns poucos
que chegaram a
ser mestres de filosofia; por outro lado, a grande e ignorante
massa popular está mais propensa a encarar essas narrativas
(as vidas dos deuses) pelo lado pior e a desprezar os deuses
como seres que se transformam nas mais crassas
abominações, ou a não temer praticar as maiores baixezas,
crendo que os deuses as praticam também” (11).
(10) A. Oakley, citado na
Filosofia do Plano da Salvação.
17
Tais eram os deuses do paganismo e tais os efeitos naturais do
seu caráter sobre os seus devotos.
Observamos que o sistema pagão como o judaico era
sacerdotal,
administrado por um sacerdócio. Entre os pagãos,
o sacerdote, que podia ser homem ou mulher, era o mediador
entre o povo e as divindades: a elas oferecia orações e fazia
sacrifícios. Em nome delas interpretava sinais, oferecia
presságios e revelava a vontade dos deuses, além de exercer
certas funções judiciais.
O culto consistia na prática de certos
atos ou ritos exte-
riores.
Era, por outras palavras, exclusivamente externo ou
cerimonial.
Não existe uma única prova
de que ensinassem a
moral (12). Os ritos compreendiam sacrifícios, ofertas, orações,
incensos, peregrinações a lugares santos ou relicários;
procissões em honra dos deuses; jejuns, abstinências,
mortificações, penitências, observância de festas e fre-
qüentemente práticas viciosas, como as acima referidas.
Esses ritos eram custosos, exigindo sacrifício da parte dos
que os seguiam, conforme a posição de cada um. Os seus
benefícios aproveitavam mais aos ricos que aos pobres. Não
eram, na maioria das vezes, abominavelmente impuros, mas
também barbaramente cruéis. Acerca da
(11) absolutamente impossível descrever detalhadamente as terríveis depravações do velho
mundo pagão. No dizer do Apóstolo, 'é vergonha mesmo o falar daquelas coisas que faziam
em secreto'. O leitor náo deve precisar que lhe digamos toda a miséria moral duma religião
cujos deuses eram debochados, bêbedos. fatricidas. prostitutos e assassinos e cujos templos
eram lupanares e antros dos piores vícios, chegando alguns a serem tolerados fora das
cidades (Vitruvio. I. 7). Seus espetáculos - as horríveis pugnas de gladiadores e cenas tão
impuras - o Catão casemeiro não podia presenciar. Suas procissões eram cortejos de
indecências. Seus altares náo raro se tingiam de sangue humano. Suas festas, as célebres
bacanais e saturnais; cujo ritual era o vício, e cujos sacerdotes e sacerdotizas... (temos de
descer um véu para esconder suas simples funções sacerdotais). No tempo de Augusto, o
casamento tinha caído em desuso. Se existia, era apenas para tornar a mulher escrava. A es-
posa tinha de trabalhar, as concubinas e cortezãs é que eram as
amigas
do seu
senhor.
Mas
tudo isto não é ainda o mais negro do quadro. Não um único dos vícios que provocaram a
extinção dos cananeus ou que fizeram vir do Céu o fogo vingador sobre as cidades da planície,
que não suje o retrato, que a história registra de quase todos os imperadores, estadistas,
poetas e filósofos da Roma Antiga e da Grécia clássica. A lepra moral corrompia tudo e a
todos. A crueldade campeava tanto quanto a sensualidade. A escravatura era universal.
Sócrates era uma exceção."
A Igreja Livre da Antigüidade,
por Basilio H. Cooper, p.31 e 32.
(12) Ver no
Dicionário de Antigüidades
do Dr. Smith o tópico
Sacerdotes.
imoralidade das cerimônias é impossível falar. Mas mesmo
que fossem descritos, não seriam acreditadas, se não fizessem
longas citações de historiadores autorizados.
Afirme-se desde que o Cristianismo baniu o conhe-
cimento dos vícios cometidos publicamente nessa época, cios
que não somente não produziam o descrédito daqueles que os
praticavam, mas que faziam parte dos seus ritos religiosos e
que, em alguns casos, eram obrigatórios e noutros, tidos como
honrosos e meritórios. É uma bênção serem agora mortas as
línguas em que essas coisas foram escritas! Mas, não devemos
esquecer as lições que elas nos ensinam.
Dissemos que os ritos pagãos eram muitas vezes barba-
ramente cruéis. Referiamo-nos principalmente à prática de
oferecer sacrifícios humanos:
e essa prática, segundo a
história antiga, parece ter sido universal. Não é conhecida a
data em que essa abominação foi introduzida, mas, sem
dúvida, foi pouco depois do princípio do mundo. Os cananeus,
3300 anos, a praticavam, oferecendo seus filhos aos ídolos
de Canaã,especialmente a Moloque (13). Foi evidentemente este
um dos crimes pelos quais o Todo-poderoso mandou destruir
aquele povo: "Não darás nenhum de teus filhos para ser
consagrado ao ídolo Moloque... porque todas estas execrações
cometeram os habitantes desta terra, que foram antes de vós,
e com elas a contaminaram. Vede, pois, não suceda... como ela
vomitou a gente que houve antes de vós, vos vomite também a
vós, se fizerdes outro tanto" (14).
É necessário explicar que a expressão usada nas
nossas Bíblias, "consagrar os filhos ao ídolo Moloque quer
dizer queimar as crianças em honra dessa divindade (15).
Sobre este ponto não dúvida. Moloque, Moleque, Malcom
ou Milcom, como chamado, era o planeta Saturno divinizado.
O seu culto existia principalmente entre os primitivos habi-
tantes de Canaã, e entre os amonitas, fenícios e cartagineses
(13) Deuteronômio 18.9,10.
(14) Levítico 18.21,27,28.
(15) Compare Deuteronômio 12.31: 18.10. com Salmos 106.38: Jeremias 7.31; 19.5: Ezequiel
16.20,21; Atos 7.43.
19
O ídolo consistia numa estátua de latão, sob a forma de
homem com cabeça de touro; tinha os braços estendidos para
a frente, um pouco abaixados. Os pais colocavam seus filhos
nas mãos do ídolo. Dali a criança caía numa fornalha onde
morria queimada. Durante a cerimônia, tocavam tambores e
trombetas para abafar os gritos dos inocentes. Algumas vezes
o ídolo era oco. Aquecido até ao rubro por fogo colocado
dentro, as crianças eram então queimadas nas mãos em brasa
da estátua.
Apesar de ter o Todo-poderoso proibido expressamente
esses crimes, os judeus praticaram-no por vezes, espe-
cialmente nos reinados de Acaz e de Manasses. Erigiram o
ídolo no vale ao sul de Jerusalém, chamado Enon, mais tarde
denominado Tofete ou Tambores em conseqüência da prática
dessa abominação, e em referência aos tambores que tocavam
para sufocar os gritos das vítimas (16). Mais tarde, o lugar veio
a ser tão aborrecido pelos judeus, que deram a ele o nome de
"Ge-hinnon" ou Geena, lugar de castigo na vida futura, isto é,
o Inferno. De maneira que, na opinião destes judeus, bastava
praticar tais abominações pagas para fazer da terra um
inferno (17).
Continuemos a indagar da prática de
sacrifícios humanos.
Principiemos pelos gregos civilizados e filósofos. Agamenon,
rei de Micenas, ofereceu sua filha Efigênia, a fim de obter
uma brisa favorável para poder atravessar um mar mais
estreito que o Canal da Mancha; e, na sua volta, ainda
ofereceu outro sacrifício humano. Os atenienses e os
massalianos ofereciam anualmente um homem a Netuno.
Menelau, rei de Esparta, sendo detido por ventos contrários,
ofereceu duas crianças egípcias. A história relata-nos que
muitos dos estados gregos ofereciam vítimas humanas antes
de empreenderem uma expedição ou guerra. Em Rodes
ofereciam um homem a Crono, deus semelhante a Moloque,
no dia 6 de julho de cada ano; em Salamina, ofereciam
também um homem em março de cada ano; em Chios e
Tenedos despedaçavam anualmente uma vítima
(16) Isaías 30.33; Jeremias 7.31,32: e 19.4-14.
(17) Deodoro Sículo, XX, 24; Eusébio, Praep. Evang.. IV. 16.
OI
humana. Na Ática, Ereteu sacrificou sua filha; Aristides
sacrificou três sobrinhos do rei da Pérsia; Temístocles
sacrificou várias pessoas nobres. Note bem! estes homens não
eram selvagens, mas tidos em seus dias como sábios, justos e
bons.
Na Tessália, ofereciam-se sacrifícios humanos; os
palagianos, em tempo de escassez, ofereciam a
décima parte
de seus filhos;
na Crimeia e no Tauro,
cada naufrágio estran-
geiro,
em vez de ser recebido com hospitalidade, era sacri-
ficado a Diana. 0 templo desta deusa em Arícia, era sempre
servido por um sacerdote, que tinha matado o seu antecessor;
e os lacedemônios anualmente ofereciam vítimas humanas a
Diana até o tempo de Licurgo, que mudou esse costume pelo
açoite. No entanto, as crianças eram muitas vezes flageladas
até morrer.
Passemos agora dos gregos e seus vizinhos para o império
de Roma. A história nos informa que, embora não tão
freqüentemente, houve sacrifícios humanos por muitos e
muitos anos.
Em Roma, era costume sacrificar anualmente trinta
homens, atirando-os ao Tibre, para obter o progresso da ci-
dade. Tito Lívio menciona que dois homens e duas mulheres
foram enterrados vivos para evitar calamidades públicas.
Plutarco descreve um sacrifício semelhante; e Caio Mário
ofereceu sua filha Calpúrnia para ser bem sucedido numa
expedição contra os címbricos. É verdade que no ano 96 a.C.
foi publicada uma lei para sustar essas práticas, o que prova
que o costume existia. Além disso, o sacerdote pagão
mostrava-se muitas vezes mais forte que o magistrado civil,
de modo que, embora a lei tivesse sido promulgada, o costume
não foi abolido. Muitos casos de sacrifícios humanos são
mencionados até ao ano 300 da nossa era -quase 400 anos
depois da publicação da lei (18).
Da Grécia e de Roma passemos a outras nações antigas, e
indaguemos quais eram a este respeito as praticas do pa-
ganismo. Entre os habitantes de Tiro, o rei oferecia o filho
para obter prosperidade; pela Escritura Sagrada sabemos
(18) Citado na
Religião Genuína e Espúria
de Mühleisen. vol. II. cap. IV.
22
que os moabitas também tinham tal costume. Na ocasião da
derrota do rei de Moabe pelos exércitos aliados de Judá e
Israel, o rei de Moabe ofereceu em sacrifício seu filho pri-
mogênito, que havia de reinar depois dele. No tempo do Novo
Testamento, Pilatos misturou o sangue de certos galileus com
os seus sacrifícios.
Os cartagineses seguiram esse costume. Em ocasiões
extraordinárias, ofereciam multidões de vítimas humanas:
durante uma batalha entre sicilianos e cartagineses, estes, sob
o comando de Amílcar, ficaram no campo oferecendo sacrifícios
às divindades do seu país, e consumindo sobre uma grande
fogueira os corpos de numerosas vítimas (19). Outra vez,
quando Agatocles estava para sitiar Cartago, os seus
habitantes, temendo que suas desgraças fossem por causa da
ira de Saturno, por lhe terem oferecido somente filhos de
escravos e estrangeiros, em vez de crianças nobres,
sacrificaram duzentas crianças das melhores famílias, a fim de
propiciar a divindade ofendida. Trezentos cidadãos imolaram-
se voluntariamente na mesma ocasião (20). Doutra vez, para
celebrar uma vitória, o mesmo povo imolou os mais perfeitos e
mais formosos dos seus cativos, e as chamas da fogueira foram
tão grandes que lhes incendiaram o acampamento (21)
Tertuliano, escritor cristão, diz que sacrifícios humanos eram
comuns na Arcádia e em Cartago nos seus dias, isto é, no
terceiro século da era cristã.
Agora voltemos ao Oriente.
No Egito havia sacrifícios de vítimas humanas, cujas
cinzas eram espalhadas pelas terras para se conseguir a
fertilidade do solo; os escolhidos eram homens de cabelo ruivo.
Durante a dinastia dos Hiksos, conta Maneto que diariamente
eram sacrificadas três pessoas, isto é,
mais de mil por ano.
Entre os persas, sabemos que existia o mesmo costume.
Quando Anestris, mulher de Xerxes, chegou à
(19) Heródoto, VII, 167.
(20) Deodoro Século, XX, 14.
(21) Deodoro Século, XX, 56.
23
idade de 50 anos, como ação de graças aos deuses (22), en-
terraram
vivas 14 crianças.
Quanto aos assírios, não possuímos ainda informação
suficiente acerca da sua mitologia, para poder dizer com
certeza que os sacrifícios humanos formavam uma parte do
seu sistema religioso, mas as recentes descobertas em Nínive,
e o desvendamento da linguagem escrita dos assírios pelo
coronel Rawlinson e outros, indicam-nos que eles adoravam
deuses aos quais, em outros países, ofereciam sacrifícios
humanos (23). É evidente que os assírios não faziam exceção à
regra quanto à crueldade do paganismo, pois das decorações
de seus palácios reais fazem parte imagens representando o
esfolar pessoas vivas e outros atos atrozes de crueldade.
Falando dos indus e chineses, será mais útil citar as suas
práticas recentes, visto como poucos dos seus antigos escritos
chegaram até nós. Dos indus, mesmo sob o domínio europeu,
consta de documentos oficiais - os registros públicos de
Bengala - que, entre os anos de 1815 e 1824, 5997 viúvas
foram queimadas vivas. Tal crueldade ainda se pratica em
lugares muito interiorizados. Também era comum afogar e
enterrar pessoas vivas. Os chineses, em Tonkin, sacrificavam
crianças cortando-as ao meio ou envenenando-as; e em Laus,
quando fundavam um templo, a obra era cimentada com o
sangue do primeiro estrangeiro que por ali passasse. Também
atiravam as crianças aos rios como sacrifício oferecido às
águas.
Voltemos agora para o norte da Europa e vejamos quais os
costumes e práticas dos pagãos. Raras são as fontes de onde
podemos obter fatos, mas temos o suficiente para tirarmos
provas bastantes das práticas pagas em toda a sua hediondez.
Harold, rei saxônio, matou dois de seus filhos para obter uma
tempestade que fizesse naufragar a esquadra
(22) Além das autoridades citadas podem-se encontrar numerosos testemunhos, tirados de
autores clássicos, na
Introdução ao Novo Testamento,
de Harwood, na
Análise da Mitologia
Antiga,
de Bryant, etc.
(23) Esboços da História da Assíria,
de Rawlinson. As mesmas investigações revelam que
prevalecia o culto da deusa Milita, cujos ritos consistiam na mais revoltante obscenidade. O
mesmo pode-se dizer da Babilônia.
dos dinamarqueses. Na Rússia, ainda no século X, um homem
foi escolhido à sorte e sacrificado, a fim de aplacar a ira dos
deuses. Na Zelândia, sacrificavam anualmente 99 pessoas ao
deus Swan-to-wite. Na Dinamarca, era sacrificado o mesmo
número de homens. Os escandinavos sacrificavam todos os
cativos a Odim. Os sacerdotes eslavos não somente matavam
vítimas humanas como também bebiam o seu sangue.
O modo de destruir a vida diferia, mas o princípio era o
mesmo e parece ter sido universal. Os gauleses matavam com
um golpe de machado, dado de tal maneira que a vítima ainda
ficasse viva, para obterem presságios por meio das suas
convulsões. Os celtas colocavam as suas vítimas num altar e
abriam-lhes o peito com uma espada; os címbricos estripavam
as vítimas; os noruegueses tiravam-lhes fora os miolos com o
jugo de um boi. Os islandeses crivavam as timas de setas.
Na Bretanha, os druídas faziam uma figura de vime de forma
humana, que enchiam de vítimas e deitavam-lhe fogo, como
descreve César: "Alguns usam imagens enormes, cujos
membros são feitos de vime e cheios de criaturas vivas; pondo-
lhes fogo, as chamas destroem essas criaturas... Quando não
número suficiente de criminosos, não têm escrúpulo de
torturar os inocentes" (24).
Os pormenores não são revoltantes, mas enfadonhos.
Contudo, não se pode considerar completa esta parte do
assunto sem lançar a vista sobre países que podem ser clas-
sificados como da antigüidade, não obstante quase nada
sabermos da sua história antiga, porque a sua religião é, ou
era até pouco tempo, paga em todo o sentido. Esses estão,
especialmente na América, na África e nas ilhas do Pacífico.
No México parece que a brutalidade de sacrificar vítimas
humanas chegou ao máximo. Nenhum autor calcula o número
anual de vítimas em menos de 20.000 e alguns o elevam a
50.000. Em ocasiões solenes, o número de sacrificados chegava
a ser pavoroso. Na dedicação do grande templo
Huitzilopolchli, no ano de 1486,
(24) De Bello Gállico,
Livro VI.
os prisioneiros, que de longa data tinham sido reservados
para esse fim, dispostos em fileiras, formavam uma linha de
cerca de duas milhas de comprimento. A cerimônia durou
alguns dias, e diz-se que 70.000 homens foram mortos. Os
companheiros de Cortez, o conquistador do México, contaram
num dos templos 136.000 caveiras.
Quando perguntaram a Montezuma, último imperador do
México, por que razão consentia que a república de Tlascala
mantivesse a sua independência, respondeu que era para que
lhe fornecesse vítimas para os deuses" (25). No tempo da seca,
para propiciar Theloc, deus da chuva, as crianças eram
sacrificadas vestidas de roupas finas, e adornadas de flores de
primavera. Escritores narram que os gritos dessas inocentes,
quando levadas em liteiras para o lugar da matança,
comoveriam os corações mais duros. Mas não podiam comover
os corações duros dos sacerdotes pagãos, que, como os devotos
de Moloque, sufocavam os gritos das criancinhas com ruidosas
músicas e cantos. Estas vítimas inocentes eram geralmente
compradas pelos sacerdotes a seus pais pobres. E pais havia
que vendiam os seus filhos! Isto era a repetição do antigo
paganismo (26).
"Sem benevolência, sem misericórdia",
é
realmente a justa qualificação dada pelo apóstolo inspirado. A
tribo Fanti e muitas outras da África ofereciam sacrifícios
humanos em cada lua nova. Em Assanti, a adoração de
tubarões e cobras era acompanhada de sacrifícios humanos em
suas formas mais pavorosas (27). Um rei ali deu instruções para
o morticínio de 6.000 escravos no seu funeral, e o seu testa-
mento hediondo foi executado. Essa prática existia em todas
as ilhas do Pacífico. Em Otaeite, grande mero de pessoas
foram mortas, depois de lhes tirarem os olhos, para os
oferecerem ao rei. Nas ilhas Marquesas, principalmente nas
ilhas Harvey e Pallisay, e nas da Nova Zelândia, não somente
sacrificavam os seus inimigos, mas
devoravam-nos.
(25) A Conquista do México,
de Prescott.
(26) A Religião Genuína e Espúria,
Mühleisen. vol.II. p.299.
(27) A África Ocidental,
de Hutchinson.
Não forma parte deste livro indagar por que a prática de
sacrifícios, particularmente de sacrifícios humanos, se
generalizou. Basta observar que não prática alguma do
paganismo para a qual não se encontre um fundamento de
verdade. Assim, os sacrifícios oferecidos pelos judeus ou pelos
pagãos, evidenciavam três grandes verdades. Primeira, que o
homem tinha ofendido o seu Deus; segunda, que alguma
expiação devia ser oferecida, ou alguma compensação feita
para satisfazer a lei ofendida; terceira, que bastaria uma
expiação substitutiva - isto é, que uma vítima inocente fosse
oferecida em lugar do pecador.
Estas idéias parecem ter existido universalmente; não
praticamente região no mundo onde não se encontrem. Sem
dúvida, derivam da revelação divina feita ao homem no
princípio da sua existência, como o método destinado a efetuar
a reconciliação entre o homem decaído e o seu Criador
ofendido. A verdade, porém, corrompeu-se, mas a consciência
humana despertando incessantemente seus temores
criminosos, evitou que a idéia se perdesse de todo. Sentindo a
necessidade de um sacrifício de valor, e perdendo de vista o
sacrifício perfeito que Deus prometera preparar, o homem
buscou no sacrifício da vida humana um sacrifício adequado à
sua culpa, e, assim, espalhou a prática de sacrificar "o fruto do
corpo pelo pecado da alma".
Não é, contudo, a origem das idéias pagas, mas o estado do
mundo pagão, que estamos desenvolvendo. Se tais eram os
ritos religiosos, qual seria a condição social e moral dos pagãos
no período que estamos considerando?! A voz da história, se a
ouvirmos atentamente, mesmo descontando os excessos das
hipérboles e as inexatidões históricas, assegura-nos que a
condição social do povo era extremamente miserável e
rebaixada. O infanticídio predominava quase tão
universalmente como as práticas a que aludimos. Não
somente em países bárbaros, mas na culta Grécia e na
civilizada Roma.
Entre os atenienses e gauleses, as leis autorizavam os pais
a destruírem os filhos. Em Esparta, as leis de Licurgo
obrigavam o pai a levar os filhos perante uma comissão
examinadora; se esta os achasse desfigurados ou fracos,
eram lançados numa caverna profunda, perto do monte
Taigeto. Aristóteles diz: necessário expor (isto é, deixar
morrer) crianças fracas e doentes, para evitar um aumento
demasiado rápido de cidadãos". Platão, na sua
República,
diz
que as crianças fracas não devem ver a luz. Também em
Roma, as leis davam autoridade aos pais para tirarem a vida
de seus filhos. Erixo e Ário, cidadãos romanos, mataram cada
um seu filho a pancadas (28)e Tertuliano afirma que os
romanos expunham seus filhos, à morte, afogando-os ou
deixando-os perecer à fome ou, devorados pelos cães. cero e
Sêneca falam dessas práticas; tratam-nas, porém, como
corriqueiras: não as censuram nem as comentam. Terêncio
descreve um certo Cremes como "um homem de grande
benevolência" e no entanto apresenta-o ordenando à sua
mulher que matasse seu filho recém-nascido. E mostra que
Cremes encolerizou-se por ter a esposa encarregado outra
pessoa de executar o ato (29).
Citemos o testemunho do escritor Gibeon. Este teste-
munho é tanto mais valioso quanto é certo que ele se esforçou
por pintar o paganismo com belas cores para prejuízo do
cristianismo. Diz: "O costume de matar crianças era o
vício
obstinado e predominante da antigüidade;
às vezes
(28) Sêneca,
De Clemência,
1,4,15.
(29) Mulhleisen, II, cap.4. O morticínio de crianças, principalmente meninas, é assim descrito por
um escritor moderno. Tomaz Bacon, autor do livro
Estudos do Natural no Hindustão,
num
trabalho sobre Benares, publicado no
Anuário Oriental para 1839,
p.92: "O revoltante crime
de infanticídio era antigamente praticado em grande escala em Benares e distritos
adjacentes, e, segundo atestam-no os próprios muçulmanos, ainda hoje se pratica, apesar de
todas as medidas proibitivas tomadas pelo Governo. Havia povos onde não escapava uma
única criança do sexo feminino, que eles destruíam sem o menor sentimento de pecado ou
crueldade. Parece que o costume tinha a sua origem no interesse, para evitarem as grandes
despesas com o casamento das filhas. A sua crença era que as almas das filhas que
trucidavam voltavam nas pessoas de filhos, que esperavam lhe nascessem. Se não nasciam,
então era porque Siva, o seu deus, estava descontente, e tratavam de o propiciar até que um
filho lhes viesse. Um dos meios de propiciação era entregar uma outra filha nas mãos dos
bramas, seus sacerdotes, que a sacrificavam solenemente. Desse costume é fácil adivinhar a
origem, quando se sabe que, com cada filha para ser sacrificada, devia ir um bom presente
para os sacerdotes. O processo caseiro de destruição era o que os hindus chamavam o
banho
de leite.
Logo ao nascer, se a criança era menina, traziam para o quarto da mãe um caldeirão
de leite quente, e depois de várias orações para que a alma da pequena voltasse num menino,
a inocente era afogada no leite e depois de morta lançada ao Ganges. Nos templos, a
destruição era feita pondo a criança de costas e, depois de cerimônias diabólicas dedicadas à
deusa medianeira Genesa, era morta a cacetadas por qualquer
fakir
desumano, e ao som de
bombos especiais.
era imposto, outras permitido e sempre impunemente, ainda
mesmo em nações que nunca admitiram as idéias romanas do
poder paternal". Os poetas dramáticos, que às vezes apelam
para o coração humano, representam com indiferença aquele
costume popular, que era seguido por motivos de economia
(™).
Vejamos agora qual era a condição social da mulher no
paganismo. Em toda a parte a mulher era considerada como
inferior ao homem. No Hindustão, na China e nos mares do
Sul, por essa razão, ainda pouco destruíam crianças do
sexo feminino. Em Bengala suspendiam as meninas recém-
nascidas nos ramos das árvores em cestas, e assim pereciam
comidas pelas formigas, moscas e aves
de rapina. Tal era a condição do sexo feminino na infância. Se
sobrevivesse a mulher era levada a um ínfimo ponto.
Aristóteles escreve: "As mulheres são uma espécie de
monstros - o começo da degeneração da nossa natureza".
A poligamia, isto é, o costume de ter muitas mulheres a
um tempo, ainda que proibida pelas leis de alguns países, era
quase universal. Não necessidade de demonstrar que tal
prática é evidentemente contrária à natureza, que
igualdade quase absoluta a ambos os sexos. Nem tão pouco é
preciso dizer que é uma prática degradante para a mulher,
pois trata-a como se fosse incapaz da afeição que tanto
distingue o seu sexo.
(30) Gibbon, no seu livro:
Decadência e Queda do império Romano,
descreve assim a situação
das crianças no direito romano: "Na casa paterna, os filhos são meras coisas". Confundidos
pela lei com os objetos semoventes. como o gado e os escravos, que o
dono
podia alienar ou
destruir, sem a menor responsabilidade perante qualquer tribunal, os pais podiam a seu
talante, castigar os filhos pelas suas faltas reais ou imaginárias, com açoites, com prisão, com
o exílio ou com a morte. "O exemplo de execuções sangrentas, muitas vezes louvadas e nunca
condenadas, encontra-se nos anais de Roma depois de Pompéia e de Augusto" (cap.44.
p.368). Tal é o testemunho de um inimigo do Cristianismo sobre o paganismo. Mas é curioso
notar como ele mesmo indiretamente presta homenagem à influência benéfica do
Cristianismo quando diz: "O Império Romano esteve manchado com o sangue dos infantes até
que tais práticas foram consideradas crime por Valenciano. no código Comeliano" (p.371). Isto
foi cerca do ano 438, depois do triunfo do Cristianismo.
Um exemplo do tratamento das crianças, no auge da civilização romana, pode ver-se na
execução de Sejano, no tempo de Tibério. Os filhos de Sejano. um menino e uma menina,
novos demais para poderem ter qualquer parte no seu crime, foram condenados a morrer com
ele. A menina, na sua simplicidade infantil, perguntou o que tinha feito, mas nem a idade,
nem o sexo. nem a inocência lhe valeram. Segundo o maldito costume da época, foi primeiro
violentada
e depois morta. (A República Romana, de Fergusson, vol.5, p.354).